O Saci-Pererê na concepção orginal de Lobato
Indubitavelmente, foi Monteiro Lobato o responsável por desenvolver a imagem do Saci, trazendo-o da imaginação popular, de onde há muito tempo se encontrava arraigada na oralidade, para a divulgação nacional, inicialmente pelas páginas do Estadinho e, depois, consolidada nas páginas de seu primeiro livro editado: O sacy perêrê - resultado de um inquérito.
O livro pioneiro não é objetivo de agora, mas apenas a concepção que Monteiro Lobato propriamente tinha do mito que investigou. Para tanto, buscamos no epistolário que o escritor manteve com seu amigo, Godofredo Rangel, as impressões de Lobato acerca do mito que pesquisou por intermédio de seus leitores, aos quais pedia descrições de lembranças e histórias de Saci.
Dentre as inúmeras cartas enviadas a Rangel, reunidas em dois volumes de A barca de Gleyre, encontra-se a missiva escrita na Fazenda Buquira em 10 de janeiro de 1917, e que contem a idéia que Lobato fazia da criatura imaginária e de onde germinou o projeto do inquérito, questionando primeiramente o amigo que residia em Minas Gerais:
Tens lido os meus artigos? Produziram efeito interessante: um despertar de consciência adormecida. E por causa deles relacionei-me com uma porção de artistas daqui, escultores e pintores. Entusiasmaram-se todos com a idéia da arte regional. O saci, sobretudo, impressionou-os muito, e eles (quase todos italianos ou de outras terras) vêm consultar-me sobre o saci como se eu tivesse alguma criação de sacis na fazenda. Finjo autoridade, pigarreio e invento - e eles tomam notas. Mas na realidade nada sei do saci - jamais vi nenhum, e até desconfio que não existe. Manda-me as tuas luzes. Como é o saci em Minas? Minha idéia é de que se trata dum molecote pretinho, duma perna só, pito aceso na boca e gorro vermelho. (...) Minha idéia de menino, segundo ouvi das negras da fazenda de meu pai, é que o saci tem olhos vermelhos, como os dos beberrões; e que faz mais molecagens do que maldades; monta e dispara os cavalos à noite; chupa-lhes o sangue e embaraça-lhes a crina.
Pouco tempo depois, em carta enviada já de S. Paulo, sem a menção de dia nem mês, daquele mesmo ano, Lobato noticia a abertura do concurso:
Abri no Estadinho um concurso de coisas sobre o Saci-Pererê e convido-te a meter o bedelho - você e outros sacizantes que haja por aí. Dá o toque de rebate.
O livro, que assina como Demonólogo Amador, somente foi publicado no ano seguinte. Dentre as mais de trezentas cartas que contém, algumas retratam o Saci exatamente como Lobato, mesmo desconfiando da sua existência, o tinha em sua concepção original, antes do resultado do inquérito: Minha idéia é de que se trata dum molecote pretinho, duma perna só, pito aceso na boca e gorro vermelho.
João Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br
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